17 maio 2026

 Voltei para este lugar que me acolheu por tanto tempo. Palavras que eu sentia que ninguém entenderia. E voltei por honrar aquela minha versão que habitava aqui. Talvez eu não tenha mais tanta habilidade com as palavras como outrora tive. Me falta o hábito da leitura e da escrita que foram consumidos pela rotina fugaz e selvagem da busca pelos recursos e cega produtividade. 

Mas eu vim aqui por um motivo nobre. Vim falar sobre quem eu me tornei desde a última vez que visitei este lugar. E são tantos os lugares que criamos ao longo da vida e que só existem na nossa criativa mente. Sinto falta de brincar com as palavras e as tornar pratos a serem degustados com suas notas de acidez, dulçor e tantos outros sabores. 

Atravessei pontes trépidas, vivi histórias sempre alimentadas de uma essência de gente que ama, que quer bem. Fui ferida e provavelmente feri também. Me tornei diferente de tudo aquilo que busquei incessantemente agradar. Entendi o tamanho e profundidade dos lugares em que me coloquei ao longo destes anos. Responsabilizei e me responsabilizei também. Hoje uso palavras mais assertivas e menos poesia pra me comunicar, coisa que a vida me exigiu. Me faz um pouco de falta essa fantasia no tato com as palavras, quem sabe eu recupero isso? Onde eu perdi essa minha parte? E é de fato uma parte minha. Está aí algo que nunca perdi, meu encanto com a vida. Até hoje tudo ainda vira poesia, ainda que eu não saiba mais colocar no papel. Mas perdi em algum lugar essa ponte bonita, nobre, cheia de arabescos que sabiam enfeitar as dores mais profundas. Talvez seja isso, aprendi que as dores não precisam mais ser enfeitadas, e sim, encaradas. E esse processo todo já não é tão poético pra quem não tem mais tempo pra sofrer. 

A última versão da Natália que escreveu por aqui sonhava com tudo o que vivemos hoje. E até falo sobre nós no plural, até quando me olho no espelho. A menina sonhadora e corajosa, que foi ferida do caminho, que perdeu a medida de tudo e não sabia mais quem ela era, faz parte de mim, faz parte de nós. E hoje eu sei ser pra ela quem ela sempre precisou que eu fosse, quase como se eu pudesse abraça-la e dizer que sim, vai ficar tudo bem. A gente viajou o mundo, a gente teve sucesso profissional, estudamos, aprendemos a nos comunicar, hoje temos nossa casinha dos sonhos. E ela sou eu, eu também sou ela, ainda que pareçamos tão diferentes, hoje não nego, somos a mesma estrutura, inocente, corajosa, cheia de amor, coisas bonitas que sempre foram maiores que a dor. Aquela Natália que por pouco colocou fim nisso tudo, que nos colocou numa UTI, ainda é mais do que tudo isso, e também é esta que está aqui escrevendo e contando tudo o que vivemos desde então. Aquele nosso episódio voltou à nossa mente tantas vezes em que me senti viva de verdade, e agradeci por estar aqui. 

E eu vim aqui pra contar que aquela dor latejante de existir, se tornou um encanto absoluto de viver. A gente aprecia o pôr do sol, a gente aprendeu que pode ser o que quiser, que somos fortes pra caramba, que podemos amar de um jeito bonito e que merecemos coisas muito bonitas também. A gente sabe viver segundo após segundo, estando presente em cada um deles. A gente sabe se defender, e construir nossos sonhos do zero se for preciso. 

Eu vou voltar a escrever pra expressar nossa existência. A minha existência. Eu mereço unir essas versões e fazer um poema bonito de se ler. Eu nunca morri, apesar de ter parecido tantas vezes. Eu nunca desisti, apesar da vontade. Uma luz sempre esteve me chamando pra algo, e ela me mostrou uma vida muito bonita de ser vivida aqui deste lado. 

10 outubro 2016

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Domingo à noite. Novamente. Provando nas horas mais doloridas da semana que estou preso no ciclo sufocante da rotina. Amanhã é segunda-feira. Novamente. Um dia que virá frio e nublado, mesmo se tiver sol. Um dia que chega aos berros, depois de ter sussurrado um fim de semana inteiro. Um dia que vem trazendo esperanças de que a semana acabe e o peso sufocante de uma semana que apenas começou.  Os dias enclausurados são previsíveis. Acordarei no começo do dia apenas pensando em seu fim, beberei café com um desejo sutil de que de alguma forma me forneça uma energia que desconheço. Começarei a exercer meu papel, mecanicamente, e serão horas preenchidas de um vazio fantasiado de produtividade. Passarei os minutos esperando pelo próximo intervalo, as horas esperando pelo fim do dia e os dias esperando pelo fim da semana. Funcionando como uma engrenagem pela inércia da máquina. Percorrerei os mesmos caminhos, as mesmas ruas, beberei do mesmo café. Enfrentarei os mesmos problemas. Chegarei ao fim de cada dia com um alívio por tudo ter acabado. Terei medo de dormir para acordar e viver o pesadelo lúcido da autonegação. Eu farei a máquina funcionar, eu estudarei a máquina, eu me tornei a máquina. Minha vida se tornou uma tediosa espera pelos fins. A máquina é uma zona de conforto e estou inegavelmente desconfortável. Este desconforto está me expelindo para fora do funcionamento mecânico das peças. Enquanto eu, inerte e confortável, remava a favor da correnteza, acreditava em ganância, em carreira, em bens, em traduzir-me pelos papéis. Eu acreditava em papéis. Uma exatidão que esconde o abstrato vivo do ser. Mitos da sociedade líquida. Hoje eu, afogado pela correnteza percebo que todos os rios levam ao mesmo mar de satisfação ilusória e artificial. É um mar morto, aonde só sobrevivem os sonhos artificiais que vieram junto à correnteza. Percebo que só preciso de um lago tranquilo de paz de espírito e simplicidade. Quando lembro das vezes em que me senti vivo, não lembro de nada que custasse caro ou um centavo qualquer. Eu lembro do vento cortando meu rosto no topo de uma montanha, lembro do toque gelado dos flocos de neve pela primeira vez em meu rosto, da água do mar brincando com a chuva em um verão abafado. Compreendo, frustrado, que o acesso à coisas tão naturais quanto o próprio ser humano custam. Custam horas, custam vida. Entendo, insatisfeito, que construímos um sistema tão eficaz quanto destruidor, de traduções numéricas, baseadas em papéis, plásticos e títulos. E se para viver pagamos com nossa vida, ainda que traduzida, que encontremos na essência individual de cada um uma forma de tornar este processo valioso pelo que vale. Que vivamos por um propósito, que seja verdadeiro à alma de cada um, que preencha os dias e horas para que não nos tornemos vazios de nós mesmos. Que não vivamos pela espera dos fins e sim em busca de recomeços até estarmos confortáveis em nós mesmos. Estou enlouquecendo paro o mundo e cada vez mais lúcido para mim mesmo.




09 maio 2016

Fugindo da Rotina

Estou voltando. Voltando para mim mesmo. Voltando a saborear o que sempre gostei. O bom vinho e os sonhos lúcidos. Sempre com um pé no chão e outro quase no céu, sonhando alto e acordado. Sendo bombardeado pela rotina e consolado pela imaginação. 
A liberdade me seduz. A solidão pode ser o preço a ser pago pelo encontro de si mesmo. Esta sede incessante é ameaçadora. Será que algum dia estarei razoavelmente satisfeito? 
Minha loucura é sanada por pequenas rebeldias. Pelo sono atrasado, pela resistência ao relógio, pelo devaneio em meio à agenda. Pela vigília num domingo de madrugada, aonde ninguém me vê e posso divagar em paz. 

08 maio 2016

Rotina

A vida tem sido um incessante processo de descoberta. Nos últimos meses descobri o que não quero, mas ainda não sei o que quero. Eu queria poder pular o tempo, chegar na parte em que tudo deu certo e, principalmente, fez sentido. Sinto uma necessidade de viver minha vida, ter meu tempo, minhas escolhas e minha casa. Mas ao mesmo tempo a responsabilidade por tudo o que tenho aqui. Preciso escrever sobre isso. Preciso me encontrar, voltar a ser quem eu sou aqui dentro, deixar minha essência florescer. Esquecer meus medos, minhas limitações. Cansei, cansei da burocracia, dos papéis, do dinheiro,  da mesa, do computador, do café amargo da tarde atribulada, do relógio, do meu papel. Cansei das expectativas, do jeito que as coisas são. Das cordas que me amarram, das coisas. Eu queria pular de fase, ir para a minha viagem, pro ano que passarei sozinha, pra me encontrar de uma vez. Pra atravessar essa passagem. Queria estar lá, longe de tudo, das minhas coisas, do meu carro, do trabalho que tenho, dos meus papéis, Numa casa desconhecida, num quarto alugado, numa cidade grande e estranha, com gente que não conheço e que não me conhece, no metrô, indo pra uma aula que provavelmente não vou gostar mas em uma vida que vou gostar. Com um café quente na mão, com uma saudade apertada do que importa, das pessoas, do que elas são, não do que existe mas de quem existe, de quem faz parte do que eu sou. Hoje é domingo, agora é noite. Este é o pior dia, a pior hora da semana. A segunda-feira e todos os outros dias encarrilhados de responsabilidades e compromissos me assombram, sussurram ao meu ouvido. Me lembram de tudo o que não gosto, de tudo o que não quero mais ver. Me lembram de como eu não sei dizer não, de dizer que não gosto e que não quero. Eu não sei. Eu admito, tenho sido incapaz de muitas coisas. Não tenho energia para lidar com tudo, estou sempre cansada. Estou cansada hoje, agora, depois de descansar um dia inteiro. Eu sei que poderia olhar para o lado positivo de tudo, mas eu já fiz muito isso e estou cansada, de mentir pra mim. Prefiro, neste momento, dizer tudo o que não queria dizer, ser verdadeira comigo. Prefiro estar escrevendo, que a tempos não fazia, preferiria estar desenhando, cozinhando, colorindo, aprendendo, vendo o abstrato, um abstrato, algo belo. Humano. Traduzir a aflição em palavras já é algo, já alivia em um domingo a noite. Mas amanhã a rotina chega, real e fria. Vai valer a pena, tem valido, já valeu a pena envelhecer uns cinco anos dentro de um só. Mas já valeu, e valerá por mais alguns meses até que eu possa, além de me dizer a verdade, viver verdadeiramente o que eu sinto. 
Este texto sincero, sem imagem, sem história, sem graça, cheio de palavras desconexas e ideias confusas e cansativas, talvez exageradas, é apenas reflexo do que está aqui dentro.

05 março 2013

Pequeno devaneio do dia-a-dia

A vida faz você deslizar e perder o rumo. Te dá sensações, certezas e incertezas que somem de uma hora para outra. Tudo depende de como você encara as coisas. E ser instintivo é perigoso Buscar a felicidade de forma frenética e imperceptível para si é uma atitude traiçoeira e muitas vezes inevitável. Quase um vício. Quando você se dá conta a vida já embaralhou suas cartas de certezas e seu mundo virou de cabeça para baixo até que alguma outra felicidade te dê razão. Enquanto isso você fica sem saber jogar e conta com a sorte para, por ventura, vencer de vez em quando. Sempre erramos tentando fazer a coisa certa. Ouvir demais o coração é um grande erro. Já destruí muita coisa ouvindo o que ele tinha a dizer e deixei de fazer coisas que valeriam a pena pelo mesmo motivo.
Agora estou correndo. Acordo correndo e durmo correndo dentro de minha mente. Hoje faço coisas que nunca me imaginei capaz de fazer. Estou realizando sonhos. E tudo faz parte de um quebra-cabeças que vai se solucionando a cada dia, a cada decisão, e formando um desenho diferente a cada passo que dou. 

11 agosto 2012

Rascunho Definitivo por Algum Tempo

Sei lá... é bom estar com você. Tão bom que tenho medo. Fico desajeitada, envergonhada e com aquele sorriso bobo. Mas sei que ainda não posso, não estou pronta e talvez nem querendo algo assim. Porque o que tenho de você, você não pode ter de mim.
Daí esses conceitos e desejos tão controversos me deixam assim, me deixam deixar. Bobeira minha. Mas deixar rolar é o melhor caminho pra quem só quer viver. E estou vivendo com você. 
É que com tudo o que me aconteceu, fiquei ainda mais cautelosa com meu coração. Porque pra mim basta pouco. Quero me apaixonar pela vida, por mim e por mais ninguém. Eu já não acreditava muito nessa história de paixão, pois acho um grande devaneio achar que alguém pode te fazer feliz. Isso é passageiro demais, pode ser lindo até certo ponto, mas acaba sempre de forma dolorida. E a lógica que funciona é evitar qualquer dor. A gente vive dolorido por tantas coisas que nos acontecem sem ao menos escolhermos e permitirmos, ou seja, creio que "amar" é se permitir sofrer. E pode-se dizer que pra viver intensamente é preciso permitir a vida acontecer, mas nem tudo é tão necessário. Paixão é capricho da alma carente, de tempo vazio. Tem tanta coisa pra viver sozinho. E viver sozinho não significa solidão. Isso está bom demais pra eu mudar agora.

08 maio 2011

Confusão passageira

Se for para culpar alguém, culpe-me. Estou acostumada. Gostaria de fugir, de começar tudo de novo, de fingir que sou forte. Desculpe-me se estou cansada. Estou cansada de me desculpar. Não quero mais fazer promessa alguma, quero apenas cumprir as que fiz e me livrar deste peso todo. Não deveria duvidar, não deveria questionar e acabar confundindo tudo dentro de mim. Já não sei mais o que sou, se o que pareço ser diverge totalmente do meu verdadeiro eu, meu reflexo está distorcido. Vejo em tudo um paradoxo sem solução plausível. Entretanto reconheço que a opção e capacidade de mudar tudo isto cabe somente a mim. Devo simplesmente parar tudo e recomeçar. Fazer as coisas como nunca antes as fiz. Ver o mundo de um jeito diferente. Sei que já tentei fazer isto incontáveis vezes. Parece até hipocrisia dizer que tudo pode mudar. Mas eu não estou sozinha nessa.
  Nunca gostei da idéia de ser responsável pela felicidade alheia, mas agora entendo. Entendo pois fazer quem eu amo feliz é meu principal e imprescindível motivo de felicidade. Nada é a mesma coisa. Minha vida mudou demais e as vezes me assusto com isso. Porém tornou-se melhor. Para tanto, recebi reprovação de alguns. 
  
 Viver estes lindos e intensos momentos, é esplêndido. Sentir tudo o que tenho sentido, é inexplicável. Apesar de tanta confusão, devo admitir que nunca fui tão feliz. 

20 dezembro 2010

Cotidiano

Olho para você.
Você diz:
 - O que foi?
Eu digo:
 - Nada, eu gosto de te olhar.
Você sorri. Eu sorrio.

27 novembro 2010

Tempo.

O tempo?
Cinco anos.
Cinco anos lutando contra o tempo, e então, finalmente conseguimos o enganar. O Vencer.
Nós fomos tão longe, porque desistir agora?
Nada mais importa.
Se uma vez conquistamos a perfeição, somos fortes o bastante para a recuperarmos.
Afinal, somos Deuses.
Os mais belos.
Eu prometi a você que estaria sempre contigo, e estarei.
Não te deixarei cair.
Renascer.
Viver.
Culpa?
A culpa é o mal.
Juntos será fácil a vencer.
Sei que não existirão mais erros.
Estarei ao seu lado, e nunca mais fracassaremos.
...
Quanto aos outros, eu apenas esqueço.
No entanto, vocês sabem, eu nunca resignei. Incorreto pedir, mas, desculpem-me.
...
Alterou toda uma eternidade?
Discordo. Temos muitas tardes e noites para passarmos juntos, e passaremos.
Seja em Paris, seja na Tesoros, ou no Rei do Mate.
Tanto faz.
Importante é que unidos somos imortais.
Heróis.
E, jogando fora as barreiras formais:
Minha Linda, Eu Amo você irremediavelmente, para sempre.

Por Geovane V. Rocco

Ainda hei

Até que ponto pode-se enganar o tempo? Até quando ele permite ser enganado? 
Que espécie de ser humano seria eu? Como classificaria alguém que não cumpre promessa alguma, que mente, que se contradiz a todo momento? O que mereceria? Tanta dúvida, tanta culpa, me deixou confusa e inconsciente. Acordei num hospital. Ainda hei de me espantar, a cada dia, com o que fiz. A cada amanhecer que poderia estar sendo tão diferente. Ainda hei de conhecer o limite da dor, que tem se afastado tanto dos meus ideais. Não há nada tão antagônico à felicidade quanto a culpa. Não há algo que me torture mais. Perecia estar tudo tão certo e perfeito, no entanto, de repente, destruí. Deixei de pensar por um instante e alterei toda uma eternidade. Reafirmei meu hábito de errar. Aumentei minha culpa. Tornei demasiadamente complexa uma ordem cronológica que costuma ser simples. Agora me dizem que devo envergonhar-me. Isso faz parte da recuperação, doutor?

17 outubro 2010

   Agradeça me amando. Há algum tempo atrás eu prometi que estaria sempre com você, e é isso o que faço agora. Em todos os meus momentos de aflição você estava de alguma forma comigo. A sua dor é minha dor.
   Às vezes tive medo de me iludir, de estar equivocada, acreditando em uma perfeição utópica. No entanto, não há como duvidar de tamanha felicidade, que resiste ainda nos piores momentos. Assim você parece tão perdido. Eu sou sua guia. Não te deixarei cair.

26 agosto 2010

É azul e frio

 Existe algo azul, frio e confortável. É como numa noite quente de verão, na qual você repousa sobre um travesseiro azul, gelado e macio. No momento em que deita-se, tudo se apaga, é como se aquele frescor te tomasse por inteiro, tomasse tua alma. Não se pensa em nada, a não ser naquele bem-estar profundo, suave. Esses dias me deitei nesse travesseiro, e o azul me tomou por inteiro. Apareceram borboletas brancas, o riso se tornou fácil e constante, os olhos brilhavam, as mãos tremiam, e o resto do mundo sumia, ficava apenas eu e o garoto azul. Diziamos palavras doces, sentiamos o frescor, o frescor azul. Acho que o amor tem cor, temperatura e textura, enfim, é azul, frio e macio. Eu disse a palavra amor?
Espero que o mundo continue colorido, ridiculamente colorido. Espero que as cores não hesitem a aparecer, se não, logo desisto.

27 junho 2010

Maldito tempo.

Essa doença silenciosa que me matou aos poucos é tão sagaz. A minha força que conseguiu quase fechar o ciclo ano passado, foi derrubada novamente por sua sagacidade. Perdida de novo, doente de novo, ferida de novo. Ela faz as energias se esgotarem a ponto de me impedir de se levantar, de comer, de olhar o azul do céu. Já não me prendo mais aos meus sonhos deslumbrantes, quimeras e ilusões maravilhosamente fantasiosas. Para realizá-los é mais que necessário se esforçar agora, percorrer a estrada hoje. Me pergunto como o farei estando tão cega, tão fraca. De repente está tudo destruído. Não é por falta de vontade, mas essa barreira é pesada demais para ultrapassar. Me assusto ao ver no que resultou essa confusão, me assusto mais ainda ao ver a repetição dessa tortura. Sem força pra nada, é assim que me sinto. Num poço escuro e frio, martilizando-me por ver que nada mudou. Essa incerteza acaba comigo. E ainda, à partir do passado momento em que a situação transpareceu e passou a ser notada, tenho de enfrentar todo o tipo de julgamento, por sorte sou dotada de uma sutileza significante. Maldito tempo.

19 junho 2010

Casa vazia


Seria essa casa vazia o meu desejo obscuro? Preparei-me para um tsunami com um guarda-chuva. De repente, toda a agonia cessa de uma forma estranha e quase abrupta, tudo pára. Talvez, a decisão tenha chegado demasiado tarde. Num dado momento vejo que o caminho não tem mais volta. Ando lutando para não me sentir culpada, no entanto, me mandaram remar até que o barco afundasse, agora estamos aqui, morrendo na praia. Não há sol, não há frio, calor, não há nenhuma estrada a vista, apenas pessoas doentes e perdidas. Cada qual se lembrando do rosto das outras e jurando nunca mais esquecer. Uma por uma indo sem dizer adeus, comportando-se como se tudo houvesse acabado ali. Acabou de começar um longo e penoso caminho a se percorrer, sem previsão alguma de chegada ou tempo, apenas uma névoa densa a cobrir tudo o que pudesse estar à vista. Em algum lugar no funda de cada alma doente há um fio de esperança, quase a se arrebentar, de que todos possam se unir novamente. Todos mudos e atônitos fazem uma caminhada abafada, escutando somente os próprios passos naquele lugar desconhecido, que a cada centímetro parecia mudar de cor, de forma, de cheiro, de direção. A vontade de voltar é imensa nessas horas. Enquanto estavam todos juntos, apesar do atrito e de toda a dor corrosiva, havia sempre um movimento a se copiar, a se basear. Já no peso do andar cansado, daquele breve inicio de caminhada, ofegavam e faziam perguntas em voz alta, sem poder responder. Perguntavam, em especial, de onde extrairiam as forças que até então estavam constantes e acomodadas dentro de si. Os pensamentos vinham rapidamente e em vertigem, causando uma confusão ainda maior. Em uma dessas vertigens, sempre aparecia algum de nós, aguardando por um abraço, e se apagando aos poucos.

02 maio 2010

    Tudo continua com uma semelhança monótona, irritante. Estou prestes a perder a vontade de me esforçar pra fazer algo de diferente. Quero sair comigo, quero comprar um livro, quero tomar um café e ler uma revista de arquitetura, só isso é o bastante. E no fim de semana, quero ir pra uma praia fria e nublada, sair de qualquer jeito pra comprar algum doce numa padaria e, quem sabe, conhecer alguém por lá. Estou farta de dar satisfações, agora vou fazer as coisas do meu jeito e presentearei os curiosos com o meu silêncio sorridente e misterioso de sempre. Descobri e reafirmei minha tese de independência própria, não preciso de ninguém pra ser feliz e me sentir satisfeita, não sou fraca o bastante pra pensar de outra forma. Continuo com muitas preocupações, mas não digo nada, pois nada que eu dissesse seria compreendido tão facilmente e me falta paciência para dar explicações. Esforço-me pra mim mesma, enquanto não veem, me torno ainda mais velha. Assim crio quilômetros de vantagem, uma diferença notável de sabedoria. Sinceramente não estou triste, muito pelo contrário, nunca estive tão feliz.
    É necessário desprender-se de lembranças insignificantes, ou melhor, torná-las insignificantes. É o que chamo de cortar o mal pela raíz. Tudo o que desejei ha um tempo atrás agora está se realizando. De uma forma surpreendente e tranquila, estou percebendo que continuo a mesma pessoa, todavia com uma maturidade perceptivelmente maior. Continuo a mesma.
    A vida tem me deixado relativamente satisfeita, nunca estou satisfeita, mas não a ponto de não ser feliz.

20 abril 2010

Por onde andei


 Depois de encontrar forças para abrir as asas, embatí-me com mais um dilema: para onde ir. Assim que a luz já não ofuscava meus olhos, tudo me deslumbrava. Muitos caminhos estavam abertos, mas eu não sabia qual escolher. Ainda após a liberdade, mantí-me na defensiva. As coisas ainda estavam complicadas, haviam resquícios, medos, preocupações, ambos me parecem desnecessários do meu ponto de vista atual. Passada essa fase, finalmente voltei a enxergar, relativamente. As oportunidades pareciam-me extremamente empolgantes. Havia muitas coisas a se fazer, muitas pessoas, muitos lugares. E aí foi quase o erro, quase um desvirtuamento de valores e conceitos. Essa refrescante maré quase me escondeu de mim mesma. Quase!
    Porém houve um momento, no qual a maré desceu e pude me enxergar. Onde estava aquela garota? Apesar de todo o ocorrido, não só recentemente, mas sim da vida inteira, haviam ótimas características a se recordar. Com facilidade, respirei fundo e meu coração bateu mais forte, por mim. Decidi ser quem sou agora, e indescritivelmente, foi isso o que aconteceu. A própria psicologia afirma: não há ninguém que cause mais interesse num ser humano, do que ele mesmo.
Concordo.
Egocentrismo? Talvez. Preciso disso por enquanto.  

Agora!

Nunca estive tão leve. Depois de todo o sofrimento pesado e exaustivo, estou aqui, descansando. Tudo mudou de uma forma brusca, ao menos é o que parece. É como se fosse um grante e monstruoso furacão que tivesse passado sobre minha vida, levando alegria e trazendo dores e tristeza. Mas, agora, tudo está diferente, é como se eu houvesse virado a página, ou melhor, trocado de livro, saindo de um livro dramático e trocado por um de comédia, romance, de auto-ajuda talvez, tudo junto. A maturidade veio e a tontura passou, agora vejo outra face da vida. Andam me dizendo que estou mais mulher, menos menina. Concordo.

19 dezembro 2009

Efeitos do Vinho

Tua imensidão pequena, tuas palavras doces, estragadas, jamais me convenceram. Teu paraíso de medo afogado, de flores fétidas, de pássaros mortos, nunca me pareceu convidativo. Conheço tua verdade como inocente nenhum conhece. Não admitiria ser ao menos parecida contigo, mas algo temos em comum: um coração frio. Ao descer as escadas do castelo sombrio ao teu lado, notei os arranhões nos teus braços, ouvi tuas mentiras e tudo o que a notoriedade esconde. Desci com um monstro, mas tu desceste comigo, eu nunca me esconderia por trás de vestes de cetim como tu fazes, porém te vi despido. Os feixes de luz dourados entravam pelas brechas das cortinas vermelhas pesadas, iluminando os cálices vazios. Ouvi teu choro, teus gritos desesperados, segurei tuas mãos para que não te machucasses mais, te vi exausto da guerra com metralhadoras de mágoas, senti o pulsar lento de teu coração e de repente senti teus lábios, e como num passe de mágica tu sorristes. Não pude fazer nada, além de também sorrir e encontrar teus lábios mais inúmeras vezes naquele fim de tarde. Descobri tua beleza, após a monstruosidade de tua verdade. E foi justo, foi justo já que todos conhecem minhas verdades impuras. E naquele dia conheci algo que não chamaria de amor e sim de ódio terno. Odeio-te. Odeio-te, meu amor. Tu entendeste todas as minhas contradições, todo o murmúrio ofegante, a dama que a pecaminosidade escondia. A fervura do ódio ao anoitecer evaporou nossos erros e revelou nossa alteza. Saímos do castelo e corremos pelo vilarejo deserto, já de madrugada. Roubamos vinho da varanda de um senhor caquético, como em todas as noites que eu fugia de casa, colocamos as roupas de um varal qualquer e pulamos no riacho que dividia a área nobre da plebéia. Decidimos participar da noite de festas dos plebeus, onde dançamos incessantemente. Tomamos o caminho de volta ao castelo, de mãos dadas. Adormecemos no sofá da sala, aconchegados um nos braços do outro. Quando acordei, te vi novamente com teus pulsos cortados, tua feiúra desmedida, tua aparência precária e pensei no lindo príncipe que havia se tornado naquela noite pelo efeito do vinho. Vesti-me, peguei uma maçã da mesa gloriosa da sala, arrumei os cabelos em função da aparência íntegra que costumo ter, e quando estava a curtos passos da porta, ouvi teu sussurrar:


- Brigitte!

E com um olhar recíproco, decidimos manter o encontro secreto. Se eu quiser redescobrir o príncipe, terei de redescobrir outras doses de vinho, pensei. Batendo os saltos e arrastando meu vestido, saí do castelo, fechando a porta com cuidado e ajeitando novamente meus cabelos. Na brisa gélida da manhã, senti o asco de um corpo imundo. Apressei-me para chegar ao meu castelo e não acordar meu pai, o Rei. Tomei um banho e adormeci em meus lençóis limpos. Suja.


14 dezembro 2009

Quando falo de dor

No mesmo tom que se fala de um falecido, falo desse ano. Arrepios de dor tomam conta de mim ao anoitecer, quando a noite deixa claro onde está a ferida. Meus olhos agitados na cama, pulo a janela e sento para ver a cidade, a névoa me abraça e o calor do meu coração declara aos gritos o arrependimento. Onde está a vida? Tudo tem sido tão injusto. A certeza das minhas escolhas tornam-se grandes erros. E eu que me achava tão madura. Início do ano: euforia, meio do ano: esporro, final do ano: dor. Ao meu ver este ano foi perdido, é como se ele se subtraísse da minha vida, submergisse. É tão típico falar de dor e cicatrizes, mas eu falo de uma dor tão verdadeira, corrosiva, fatal. Desde a hora em que acordo ela me tortura, é como se meu coração estivesse sendo pressionado, literalmente. À noite ela se acentua, e como eu disse, a escuridão deixa claro onde está a ferida. 
 E eu vou sonhando... sonhando em ser curada, sonhando em ser o suficiente, em superar as espectativas, sonhando em ver o sol nascer, em encontrar alguém, em encontrar até mesmo um amor. Eu sonho, porque são meus sonhos que não me deixam cair.

 Vista da minha janela

08 dezembro 2009

Agora

Há uma grande estória, um grande conto que preenche meu vazio. A militância indisciplinada expôs suas armas e agora estou criando a coragem de manusear a artilharia, o poderio bélico que sempre molestou meu pensamento. Deixo a ironia de lado e pego a displicência e a refutação afoita, armas mais pesadas. Apesar de causar leves discórdias, um tanto quanto provocantes, essa petulância toda é bem gratificante, pacifica e aquieta minh'alma. É uma euforia rebelde, talvez adolescente. Ela fica frenética, de tocaia, pronta para atacar na primeira deixa. Parece que essa arrogância toda foi emanada do veneno que se conteve em mim por muitos anos e que começa a se exibir, ainda contida pelo meu caráter regrado. Talvez eu esteja me tornando uma pessoa amargurada, quem sabe? É dorida a sensação de se olhar no espelho, procurar defeitos, e não achar nada tão relevante a ponto de explicar o motivo de todo esse fracasso social.  Vejo os sorrisos flamejantes que um dia presenciei, mas tenho certeza que nunca foram direcionados a mim. Ouço as risadas, vejo os amores e sempre me pergunto porquê não acerto a hora e o lugar.