17 maio 2026

 Voltei para este lugar que me acolheu por tanto tempo. Palavras que eu sentia que ninguém entenderia. E voltei por honrar aquela minha versão que habitava aqui. Talvez eu não tenha mais tanta habilidade com as palavras como outrora tive. Me falta o hábito da leitura e da escrita que foram consumidos pela rotina fugaz e selvagem da busca pelos recursos e cega produtividade. 

Mas eu vim aqui por um motivo nobre. Vim falar sobre quem eu me tornei desde a última vez que visitei este lugar. E são tantos os lugares que criamos ao longo da vida e que só existem na nossa criativa mente. Sinto falta de brincar com as palavras e as tornar pratos a serem degustados com suas notas de acidez, dulçor e tantos outros sabores. 

Atravessei pontes trépidas, vivi histórias sempre alimentadas de uma essência de gente que ama, que quer bem. Fui ferida e provavelmente feri também. Me tornei diferente de tudo aquilo que busquei incessantemente agradar. Entendi o tamanho e profundidade dos lugares em que me coloquei ao longo destes anos. Responsabilizei e me responsabilizei também. Hoje uso palavras mais assertivas e menos poesia pra me comunicar, coisa que a vida me exigiu. Me faz um pouco de falta essa fantasia no tato com as palavras, quem sabe eu recupero isso? Onde eu perdi essa minha parte? E é de fato uma parte minha. Está aí algo que nunca perdi, meu encanto com a vida. Até hoje tudo ainda vira poesia, ainda que eu não saiba mais colocar no papel. Mas perdi em algum lugar essa ponte bonita, nobre, cheia de arabescos que sabiam enfeitar as dores mais profundas. Talvez seja isso, aprendi que as dores não precisam mais ser enfeitadas, e sim, encaradas. E esse processo todo já não é tão poético pra quem não tem mais tempo pra sofrer. 

A última versão da Natália que escreveu por aqui sonhava com tudo o que vivemos hoje. E até falo sobre nós no plural, até quando me olho no espelho. A menina sonhadora e corajosa, que foi ferida do caminho, que perdeu a medida de tudo e não sabia mais quem ela era, faz parte de mim, faz parte de nós. E hoje eu sei ser pra ela quem ela sempre precisou que eu fosse, quase como se eu pudesse abraça-la e dizer que sim, vai ficar tudo bem. A gente viajou o mundo, a gente teve sucesso profissional, estudamos, aprendemos a nos comunicar, hoje temos nossa casinha dos sonhos. E ela sou eu, eu também sou ela, ainda que pareçamos tão diferentes, hoje não nego, somos a mesma estrutura, inocente, corajosa, cheia de amor, coisas bonitas que sempre foram maiores que a dor. Aquela Natália que por pouco colocou fim nisso tudo, que nos colocou numa UTI, ainda é mais do que tudo isso, e também é esta que está aqui escrevendo e contando tudo o que vivemos desde então. Aquele nosso episódio voltou à nossa mente tantas vezes em que me senti viva de verdade, e agradeci por estar aqui. 

E eu vim aqui pra contar que aquela dor latejante de existir, se tornou um encanto absoluto de viver. A gente aprecia o pôr do sol, a gente aprendeu que pode ser o que quiser, que somos fortes pra caramba, que podemos amar de um jeito bonito e que merecemos coisas muito bonitas também. A gente sabe viver segundo após segundo, estando presente em cada um deles. A gente sabe se defender, e construir nossos sonhos do zero se for preciso. 

Eu vou voltar a escrever pra expressar nossa existência. A minha existência. Eu mereço unir essas versões e fazer um poema bonito de se ler. Eu nunca morri, apesar de ter parecido tantas vezes. Eu nunca desisti, apesar da vontade. Uma luz sempre esteve me chamando pra algo, e ela me mostrou uma vida muito bonita de ser vivida aqui deste lado.